O branco não é uma cor:
é o que o carvão revela,
o carvão tão branco apesar,
do negro com que opera.
Talvez o branco seja apenas
forma de ser, ou seja
a forma de ser que só pode
na mais dura pureza.
E, embora negro e branco sempre
nos opostos se vejam,
a instabilidade dos dois
é de igual natureza:
ambos têm a limitação
(se polos na aparência)
glandular, de só conseguirem
viver na intransigência.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Os Quatro Elementos - João Cabral de Melo Neto
AR
Um pássaro
Um avião
Um bailarino
Estão perdidos
No ar que eu respiro.
Uma casa
Uma árvore
Uma cidade
Se agitam
No ar que me banha.
No ar ás vezes perturbado
Pela rápida passagem
Da poesia :
Numa flor que treme
Num homem que se esquece
Nos noturnos sonhos ainda próximos
Tirando a lucidez
Ao ar da manhã.
TERRA
Á terra não é dado se evadir
(A terra diária : excesso talvez
De mãos necessárias como o ferro)
Como no céu foge uma nuvem
Como no ar erra a presença
Transparente - o mundo luminoso
Que a terra pode apenas ir sonhado.
ÁGUA
Água, água, água;
Água do mar e do copo;
Da sede e do navio;
Distância
Entre mim e o naufrago.
Presença futura na nuvem
Voando sobre Nova York;
No inverno
Molhando nossas almas
Água ausente da lua
Das pedras, dos fantasmas
Que surpreendemos imitando
Nossos gestos aquáticos.
Água sempre pronta
Para fugir, para partir :
(Fuga no ar como os sonhos)
Água do vapor de água.
FOGO
Fogo informe e obscuro
Que as palavras não atingem ;
Fogo um só como o homem
Fogo um só sobre a terra ;
Acaso sempre renovado
Da luz elétrica que se acende
De um sol que sempre nasce
Criando as profundezas
Debaixo do céu e dentro do meu quarto.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Falar com Coisas - João Cabral de Melo Neto
As coisas, por detrás de nós,
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é
comprar o que seja sem moeda:
é sem fundos, falar com cheques,
em líquida, informe diarréia.
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é
comprar o que seja sem moeda:
é sem fundos, falar com cheques,
em líquida, informe diarréia.
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Jogos Frutais - João Cabral de Melo Neto
De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.
Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.
Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.
É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.
Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.
De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.
o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.
Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.
És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.
o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.
Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.
Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.
És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.
Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampoucoem vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.
Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.
Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar
.que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.
De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.
És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.
És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do .mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba..
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.
Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a Iínguae a sede
de todo estanca.
Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.
Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.
Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.
Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.
És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.
Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.
Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.
É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.
Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.
De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.
o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.
Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.
És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.
o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.
Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.
Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.
És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.
Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampoucoem vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.
Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.
Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar
.que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.
De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.
És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.
És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do .mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba..
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.
Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a Iínguae a sede
de todo estanca.
Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.
Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.
Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.
Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.
És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A Morte do Outros - João Cabral de Melo Neto
A morte alheia tem anedota
que prende o morto ao dia-a-dia,
que ainda o obriga a estar conosco
já morto, ainda aniversaria.
Só que não vamos pelo morto:
Queremos ver a companheira,
a mulher com que agora vive;
comprá-la, de alguma maneira.
Dizer-lhe: do marido de hoje
mais do que amigos fomos manos;
para que, amiga, salte um nome
de seu preciso livro Quandos.
que prende o morto ao dia-a-dia,
que ainda o obriga a estar conosco
já morto, ainda aniversaria.
Só que não vamos pelo morto:
Queremos ver a companheira,
a mulher com que agora vive;
comprá-la, de alguma maneira.
Dizer-lhe: do marido de hoje
mais do que amigos fomos manos;
para que, amiga, salte um nome
de seu preciso livro Quandos.
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Os Pólos do Branco (ou do Negro) - João Cabral de Melo Neto
O branco não é uma cor:
é o que o carvão revela,
o carvão tão branco, apesar
do negro com que opera.
Talvez o branco seja apenas
forma de ser, ou seja
a forma de ser que só o pode
na mais dura pureza.
E embora negro e branco sempre
nos opostos se vejam,
a instabilidade dos dois
é de igual natureza:
ambos têm a limitação
(se pólos na aparência)
glandular, de só conseguirem
viver na intransigência.
é o que o carvão revela,
o carvão tão branco, apesar
do negro com que opera.
Talvez o branco seja apenas
forma de ser, ou seja
a forma de ser que só o pode
na mais dura pureza.
E embora negro e branco sempre
nos opostos se vejam,
a instabilidade dos dois
é de igual natureza:
ambos têm a limitação
(se pólos na aparência)
glandular, de só conseguirem
viver na intransigência.
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Formas do Nu - João Cabral de Melo Neto
1.
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
de seu cuspe privado.
Jamais para velar-se:
e por isso não são ralos.
Para enredar os outros
é que usa os enredados.
Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama, autobiográfico.
E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.
2.
Somente na metade
é o arauá couraçado.
Na metade cimento,
na laje do telhado.
Porque apenas do teto
que o veste pelo alto,
o arauá existe nu,
nu de pele, esfolado.
Sua casa tem teto
mas não tem assoalho:
cai descalça no mangue,
chão também escoriado.
E o morador da casa
se mistura por baixo
com a lama já mucosa:
bixo e chão penetrados.
3.
Que animais prezam o nu
quanto o burro e o cavalo(que aliás em Pernambuco
jamais andam calçados).
A sela e a cangalha
deixam-nos sufocados
como se respirassem
também pelos costados.
É vê-los se espojar
na escova má do pasto
quando lhes tiram o arreio
e os soltam no cercado:
se espojando, têm todos
os gestos de asfixiado:
espasmos, estertores
de asmático e afogado.
4.
O homem é o animal
mais vestido e calçado.
Primeiro, a pano e feltro
se isola do ar do abraço.
Depois, a pedra e cal,
de paredes trajado,
se defende do abismo
horizontal do espaço.
Para evitar terra,
calça nos pés sapatos,
nos sapatos, tapetes,
e nos tapetes, soalhos.
Calça as ruas: e como
não pode todo o mato
para andar nele estende
passadeiras de asfalto.
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
de seu cuspe privado.
Jamais para velar-se:
e por isso não são ralos.
Para enredar os outros
é que usa os enredados.
Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama, autobiográfico.
E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.
2.
Somente na metade
é o arauá couraçado.
Na metade cimento,
na laje do telhado.
Porque apenas do teto
que o veste pelo alto,
o arauá existe nu,
nu de pele, esfolado.
Sua casa tem teto
mas não tem assoalho:
cai descalça no mangue,
chão também escoriado.
E o morador da casa
se mistura por baixo
com a lama já mucosa:
bixo e chão penetrados.
3.
Que animais prezam o nu
quanto o burro e o cavalo(que aliás em Pernambuco
jamais andam calçados).
A sela e a cangalha
deixam-nos sufocados
como se respirassem
também pelos costados.
É vê-los se espojar
na escova má do pasto
quando lhes tiram o arreio
e os soltam no cercado:
se espojando, têm todos
os gestos de asfixiado:
espasmos, estertores
de asmático e afogado.
4.
O homem é o animal
mais vestido e calçado.
Primeiro, a pano e feltro
se isola do ar do abraço.
Depois, a pedra e cal,
de paredes trajado,
se defende do abismo
horizontal do espaço.
Para evitar terra,
calça nos pés sapatos,
nos sapatos, tapetes,
e nos tapetes, soalhos.
Calça as ruas: e como
não pode todo o mato
para andar nele estende
passadeiras de asfalto.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
O Último Poema - João Cabral de Melo Neto
Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.
Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),
seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.
fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,
ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema
mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.
nem se Quem disso a chamaria.
Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),
seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.
fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,
ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema
mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Anúncio para Cosmético - João Cabral de Melo Neto
Nada há contra o tempo.
O homem tudo o que pode
é fechar-se ao espaço
redondo que o envolve;
jogar fora o espaço,
o fora, ele sim pode,
assim numa Cartuxa
que do ao redor o isole.
Mas o tempo é de dentro;
dentro ele faz-se, escorre,
e esse escorrer interno
não há nada que o corte.
Às vezes o "............"
por certo tempo o encobre:
não tempo ele próprio,
sim o corpo que ele morde,
já que o expressar do tempo
é roer o que percorre.
O homem tudo o que pode
é fechar-se ao espaço
redondo que o envolve;
jogar fora o espaço,
o fora, ele sim pode,
assim numa Cartuxa
que do ao redor o isole.
Mas o tempo é de dentro;
dentro ele faz-se, escorre,
e esse escorrer interno
não há nada que o corte.
Às vezes o "............"
por certo tempo o encobre:
não tempo ele próprio,
sim o corpo que ele morde,
já que o expressar do tempo
é roer o que percorre.
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quarta-feira, 14 de agosto de 2013
As Astúcias da Morte - João Cabral de Melo Neto
Há o morrer em lâmina fina
do fuzilado ou em guilhotina
e um morrer que se desmerece,
morrer de cama, isto é, morrer-se.
A votar, quem não votaria
no primeiro, em sua faca fria?
Mas quem que caiu na água morna
da morte de cama, langorosa,
se lembra que votou num dia
na morte em metal, expedita?
Dentro da água morna, remansa,
de banheira, mas que é da cama,
ninguém pensa que vai morrer
onde viu tantos sóis nascer
(na cama ambígua o levantar-se
pesa mais forte que um cadáver:
ninguém pensa morrer nem crê
que já começa a apodrecer
nem que o bafo em que se revolve
é já o mau hálito da morte).
do fuzilado ou em guilhotina
e um morrer que se desmerece,
morrer de cama, isto é, morrer-se.
A votar, quem não votaria
no primeiro, em sua faca fria?
Mas quem que caiu na água morna
da morte de cama, langorosa,
se lembra que votou num dia
na morte em metal, expedita?
Dentro da água morna, remansa,
de banheira, mas que é da cama,
ninguém pensa que vai morrer
onde viu tantos sóis nascer
(na cama ambígua o levantar-se
pesa mais forte que um cadáver:
ninguém pensa morrer nem crê
que já começa a apodrecer
nem que o bafo em que se revolve
é já o mau hálito da morte).
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
O Avelós - João Cabral de Melo Neto
Uma cerca viva existe
pelo incinerado Nordeste
(a quem o Sul dá sequer
a hora do relógio se a pede)
e que se conserva verde
quando ao redor tudo no Agreste
quartas-feiras de cinza
retira dos baús e veste.
Não é verde para mentir
o incinerado em volta, é adrede:
dá um leite que queima
quem é de fora a desconhece.
pelo incinerado Nordeste
(a quem o Sul dá sequer
a hora do relógio se a pede)
e que se conserva verde
quando ao redor tudo no Agreste
quartas-feiras de cinza
retira dos baús e veste.
Não é verde para mentir
o incinerado em volta, é adrede:
dá um leite que queima
quem é de fora a desconhece.
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quarta-feira, 10 de julho de 2013
O Artista Inconfessável - João Cabral de Melo Neto
Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
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quarta-feira, 19 de junho de 2013
Um Decanter - João Cabral de Melo Neto
Só álcool dessa garrafa
pode o vinagre e o ferrão
para a alma toda murcha
na pose fetal do não,
fechada num novelo
de linha, enodoada:
e ele só pode encontrar
a ponta dessa meada
e fazer ainda fluir
a alma estancada em rolo,
tão centrada em si mesma
que o fio fez-se caroço.
E porque essa garrafa
é em perfis, em cristal, forma,
concreta no espaço nada,
anônimo, em sua volta,
pode ela depois deter,
fazendo-se noz ou centro
daquilo em que se derrama,
o que antes fora nó denso,
e mesmo impedir que a alma
já desnodoada, solta,
derrame-se desfiada,
sem carretel, forma ou fôrma.
pode o vinagre e o ferrão
para a alma toda murcha
na pose fetal do não,
fechada num novelo
de linha, enodoada:
e ele só pode encontrar
a ponta dessa meada
e fazer ainda fluir
a alma estancada em rolo,
tão centrada em si mesma
que o fio fez-se caroço.
E porque essa garrafa
é em perfis, em cristal, forma,
concreta no espaço nada,
anônimo, em sua volta,
pode ela depois deter,
fazendo-se noz ou centro
daquilo em que se derrama,
o que antes fora nó denso,
e mesmo impedir que a alma
já desnodoada, solta,
derrame-se desfiada,
sem carretel, forma ou fôrma.
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quarta-feira, 22 de maio de 2013
Retrato do Poeta - João Cabral de Melo Neto
O poeta de que contou Burgess,
que só escrevia na latrina,
quando sua obra lhe saia
por debaixo como por cima,
volta sempre à lembrança
quando em frente à poesia
meditabunda que
se que filosofia,
mas que sem a coragem e o rigor
de ser uma ou outra, joga e hesita,
ou não hesita e apenas joga
com o fácil, como vigarista.
Pois tal meditabúndia
certo há de ser escrita
a partir de latrinas
e diarréias propícias.
que só escrevia na latrina,
quando sua obra lhe saia
por debaixo como por cima,
volta sempre à lembrança
quando em frente à poesia
meditabunda que
se que filosofia,
mas que sem a coragem e o rigor
de ser uma ou outra, joga e hesita,
ou não hesita e apenas joga
com o fácil, como vigarista.
Pois tal meditabúndia
certo há de ser escrita
a partir de latrinas
e diarréias propícias.
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quarta-feira, 8 de maio de 2013
O Urubu Mobilizado - João Cabral de Melo Neto
Durante as sêcas do Sertão, o urubu
de urubu livre, passa a funcionário.
O urubu não retira, pois prevendo cedo
que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,
cala os serviços prestados e diplomas,
que o enquadrariam num melhor salário,
e vai acolitar os empreiteiros da seca,
veterano, mas ainda com zelos de novato:
aviando com eutanásia o morto incerto,
êle, que no civil que o morto claro.
2
Embora mobilizado, nesse urubu em ação
reponta logo o perfeito profissional.
No ar compenetrado, curvo e conselheiro,
no todo de guarda-chuva, na unção clerical,
Com que age, embora em pôsto subalterno:
êle, um convicto profissional liberal.
de urubu livre, passa a funcionário.
O urubu não retira, pois prevendo cedo
que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,
cala os serviços prestados e diplomas,
que o enquadrariam num melhor salário,
e vai acolitar os empreiteiros da seca,
veterano, mas ainda com zelos de novato:
aviando com eutanásia o morto incerto,
êle, que no civil que o morto claro.
2
Embora mobilizado, nesse urubu em ação
reponta logo o perfeito profissional.
No ar compenetrado, curvo e conselheiro,
no todo de guarda-chuva, na unção clerical,
Com que age, embora em pôsto subalterno:
êle, um convicto profissional liberal.
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João Cabral de Melo Neto,
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Poesia
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Imitação da água - João Cabral de Melo Neto
De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.
Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.
Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.
Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista
e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.
Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,
e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas
mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.
Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.
Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.
Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista
e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.
Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,
e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas
mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.
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quarta-feira, 10 de abril de 2013
Rio e/ou Poço - João Cabral de Melo Neto
Quando tu, na vertical,
te ergues, de pé em ti mesma,
é possível descrever-te
com a água da correnteza;
tens a alegria infantil,
popular, passarinhadeira,
de um riacho horizontal
(e embora de pé estejas).
Mas quando na horizontal,
em certas horas, te deixas,
que é quando, por fora, mais
as águas correntes lembras,
mas quando à tua extensão,
como se rio, te entregas,
quando te deitas em rio
que se deita sobre a terra,
então, se é da água corrente,
por longa, tua aparência,
somente a água de um poço
expressa tua natureza;
só uma água vertical
pode, de alguma maneira,
ser a imagem do que és
quando horizontal e queda.
Só uma água vertical,
água parada em si mesma,
água vertical de poço,
água toda em profundeza,
água em si mesma, parada,
e que ao parar mais se adensa,
água densa água, como
de alma tua alma está densa.
te ergues, de pé em ti mesma,
é possível descrever-te
com a água da correnteza;
tens a alegria infantil,
popular, passarinhadeira,
de um riacho horizontal
(e embora de pé estejas).
Mas quando na horizontal,
em certas horas, te deixas,
que é quando, por fora, mais
as águas correntes lembras,
mas quando à tua extensão,
como se rio, te entregas,
quando te deitas em rio
que se deita sobre a terra,
então, se é da água corrente,
por longa, tua aparência,
somente a água de um poço
expressa tua natureza;
só uma água vertical
pode, de alguma maneira,
ser a imagem do que és
quando horizontal e queda.
Só uma água vertical,
água parada em si mesma,
água vertical de poço,
água toda em profundeza,
água em si mesma, parada,
e que ao parar mais se adensa,
água densa água, como
de alma tua alma está densa.
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quarta-feira, 20 de março de 2013
Campo de Tarragona - João Cabral de Melo Neto
Do alto da torre quadrada
da casa de En Joan Miró
o campo de Tarragona
é mapa de uma só cor.
É a terra de Catalunha
terra de verdes antigos,
penteada de avelã
oliveiras, vinha, trigo.
No campo de Tarragona
dá-se sem guardar desvãos:
como planta de engenheiro
ou sala de cirurgião.
No campo de Tarragona
(campo ou mapa o que se vê)
a face da Catalunha
é mais clássica de ler.
Podeis decifrar as vilas,
constelação matemática,
que o sol vai acendendo
por sobre o verde de mapa.
Podeis lê-las na planície
como em uma carta geográfica,
com seus volumes que ao sol
têm agudeza de lâmina,
podeis vê-las, recortadas,
com as torres oitavadas
de suas igrejas pardas,
igrejas, mas calculadas.
Girando-se sobre mapa,
desdobrado pelo chão
ao pé da torre quadrada,
se avista o mar catalão.
É mar também sem mistério,
é mar de medidas ondas,
a prolongar o humanismo
do campo de Tarragona.
Foram águas tão lavradas
quanto os campos catalães.
Mas poucas velas trabalham,
hoje, mar de tantas cãs.
da casa de En Joan Miró
o campo de Tarragona
é mapa de uma só cor.
É a terra de Catalunha
terra de verdes antigos,
penteada de avelã
oliveiras, vinha, trigo.
No campo de Tarragona
dá-se sem guardar desvãos:
como planta de engenheiro
ou sala de cirurgião.
No campo de Tarragona
(campo ou mapa o que se vê)
a face da Catalunha
é mais clássica de ler.
Podeis decifrar as vilas,
constelação matemática,
que o sol vai acendendo
por sobre o verde de mapa.
Podeis lê-las na planície
como em uma carta geográfica,
com seus volumes que ao sol
têm agudeza de lâmina,
podeis vê-las, recortadas,
com as torres oitavadas
de suas igrejas pardas,
igrejas, mas calculadas.
Girando-se sobre mapa,
desdobrado pelo chão
ao pé da torre quadrada,
se avista o mar catalão.
É mar também sem mistério,
é mar de medidas ondas,
a prolongar o humanismo
do campo de Tarragona.
Foram águas tão lavradas
quanto os campos catalães.
Mas poucas velas trabalham,
hoje, mar de tantas cãs.
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quarta-feira, 6 de março de 2013
Tecendo a Manhã - João Cabral de Melo Neto
Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
A Árore - João Cabral de Melo Neto
O frio olhar salta pela janela
para o jardim onde anunciam
a árvore.
A árvore da vida? A árvore
da lua? A maternidade simples
do futuro?
A árvore que vi numa cidade?
O melhor homem? O homem além
e sem palavras?
Ou a árvore que os homens
adivinho? Em suas veias, seus cabelos
ao vento?
(O frio olhar
volta pela janela
ao cimento bruto
do quarto e da alma:
calma perfeita,
pura inércia,
onde jamais penetrará
o rumor
da oculta fábrica
que cria as coisas,
do oculto impulso
que explode em coisas
como na frágil folha
daquele jardim.)
para o jardim onde anunciam
a árvore.
A árvore da vida? A árvore
da lua? A maternidade simples
do futuro?
A árvore que vi numa cidade?
O melhor homem? O homem além
e sem palavras?
Ou a árvore que os homens
adivinho? Em suas veias, seus cabelos
ao vento?
(O frio olhar
volta pela janela
ao cimento bruto
do quarto e da alma:
calma perfeita,
pura inércia,
onde jamais penetrará
o rumor
da oculta fábrica
que cria as coisas,
do oculto impulso
que explode em coisas
como na frágil folha
daquele jardim.)
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