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sábado, 10 de setembro de 2016

O Senhor Embaixador - Erico Verissimo

A obra de Erico Verissimo costuma ser comentada como tendo duas partes: antes e depois de O Tempo e o Vento, de modo que este livro se enquadra na metade dita de mais qualidade do autor, posterior a'O Tempo e o Vento. Eu, por outro lado, divido a obra do grande escritor gaúcho em três categorias: Os Primeiros Livros, Os Históricos e Os Outros; sendo Os Primeiros Livros marcados por um estilo em aperfeiçoamento, do início de carreira. Seriam como exercícios literários. Os Históricos, fortemente regionalistas, têm o Rio Grande do Sul como palco, a História como plano de fundo e audaciosos projetos como trama. Já os Outros, são livros que não se enquadra na inexperiência dos Primeiros Livros, mas não têm a robustez dos Históricos.
Este é um dos Outros.
A trama envolve em um paiséco fictício na América Central,  a ilha de Sacramento, imaginado a partir de retalhos da mirabolante história dos países reais da América Latina, marcado por indianismos, caudilhismos, revolucionários hipócritas e mulherengos, comunista fanáticos e intervenções estadunidense.
Dois personagens centrais conduzem os pontos de vista da história, Bill Godkin um jornalista aposentado especializado em cobris eventos na América Latina, e Gabriel Heliodoro embaixador de Sacramento em Washington.
Na primeira parte do livro, é descrito o fim da carreira de Godkin e o início da de Heliodoro, quando ele chega aos Estados Unidos, recebe as credenciais e se ambienta no fazer diplomático. É interessante, nessa parte do livro, a descrição do ambiente político na América do Norte, a diplomacia em plena Guerra Fria.
Nas partes seguintes, os protagonista têm de lidar com mais uma revolução em Sacramento.

sábado, 26 de março de 2016

O Astronauta sem Regime - Jô Soares

Sou grande fã de Jô Soares. Já havia lido todos os seus livros de sucesso, procuro assistir ao seu programa todos os dias, gosto muito de seus textos e de suas sacadas.
No entanto, ainda não tinha tido a oportunidade de ler sua primeira publicação, a coletânea de contos, poesias e crônicas humorísticas O Astronauta sem Regime, lança em 1985. Na verdade, o livro não fez grande sucesso e hoje está esgotado sem perspectiva de relançamento, só sendo encontrado em sebos e velhas bibliotecas, dificilmente em bom estado. O meu mesmo, foi adquirido em um sebo de São Paulo, e apesar de ter saído por um bom preço, está relativamente bem conservado, e é em capa dura (um bom hábito que vem se perdendo nas últimas décadas).
O livro não me surpreendeu muito, ficará como um adorno em minhas estantes, mas eu seleciono para esse comentário uma face do livro que me parece ter sido pouco divulgada. Como eu disse, o livro é composto basicamente por contos, poemas e crônicas de humor, entretanto, alguns dos textos são fechado por frases não relacionadas ao seu tema, mas que refletem com clareza o senso humor de seu autor. Ei-las:


  • Com tanto astronauta, é normal que a Lua um dia fique cheia.
  • Perdeu a memória e não conseguiu se lembrar onde.
  • As melhores coisas da vida não custam nada. Você só paga as embalagens.
  • Era fundo como um poço, mas vazio.
  • Se alguém o chamar de cachorro, não ligue. Ladre.
  • Tão distraído que contratou um detetive particular para saber por onde andava.
  • O cemitério de elefantes é um lugar tão difícil de encontrar como onde se reúnem os motoristas de praça quando chove.
  • Pode-se usar um transatlântico no Pacífico?
  • Só escrevia para seu pai em estilo telegráfico: S.O.S. S.O.S. S.O.S.
  • Especializou-se em generalidades.
  • Tão insignificante que seu nome era Psiu.
  • Todos os tesouros da Terra não valem nada quando não são nossos.
  • O enterro do mau-caráter foi muito concorrido. Todos queriam saber se ele tinha morrido mesmo.
  • "Vá ver se eu estou na esquina", disse o mágico. Foram, e ele estava.
  • O livro tinha princípio, meio e fim. Mas não nessa ordem.
  • A coincidência é uma coisa tão incrível que nunca pode ser mera.
  • Tinha uma memória fotográfica. Só se lembrava de fotografias.
  • Se mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo, muito mais depressa ainda se pega um mentiroso coxo.
  • Sua beleza falava por si. Só que ninguém escutava.
  • Era tão velho que conseguiu chegar à posteridade ainda com vida.
  • Para o octogenário, um dia já é calendário.
  • Era tão indeciso que conseguia chegar às oito em ponto mais ou menos.
  • Ser ou não ser o quê, Hamlet?
  • De cada cinco meninos que nascem, um é chinês. A não ser na China, onde os são cinco são chineses.
  • Tem uma coisa que não se comprar com o dinheiro: pobreza.
  • Depois do caso Watergate, ficou claro que os Estados Unidos são realmente um tipo de sociedade e que tudo se sabe.
  • A grande vantagem do duelo é que não existe mais.
  • Eu acho o papel do Yes muito positivo.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Incidente em Antares - Erico Verissimo

"Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros."
É esta a nota de abertura que nos deixa Erico Verissimo ao início desse livro maravilhoso.
Primeiramente, vamos a um mea culpa: eu ainda não tinha lido nenhum livro desse gênio da literatura brasileira, marco de uma geração e ídolo da literatura gaúcha. Já conhecia, é verdade, parte de seus títulos e sabia o quão querido ele é pelos leitores, mas não havia experienciado a abrangência de seu talento, seus personagens comicamente realistas e ao mesmo tempo cruelmente fantasiosos, sua narrativa fluente, coesa e ricamente marcada pela história do Rio Grande do Sul e do Brasil. Já havia, também, lido livros de seu filho, Luis Fernando Verissimo, que aparentemente herdou do pai o talento para a escrita, embora represente um estilo bastante diferente.

Incidente em Antares é dividido em duas partes. Na primeira, somos apresentados à pictórica cidadezinha gaúcha, às margens do rio Uruguai, na fronteira com a Argentina. Antares é vizinha de São Borja, terra da família Vargas, que pelos idos do 1930 fez um Presidente da República.
Nessa metade do livro, assistimos em um privilegiado lugar de leitor aos acontecimentos beligerantes que marcaram a história do inusitado povoado missioneiro, desde sua fundação, pelas mãos do estancieiro Francisco Vacariano, à chegada do pecuarista Anacleto Campolargo, passando pelo ódio instantâneo surgido entre os dois gaúchos, por suas artimanhas políticas e pelos inúmeros confrontos entre as famílias, até a reconciliação forçada por um certo Getúlio de São Borja, e a amizade de surgida entre seus membros durante o século XX.
Pela ótica dessas duas famílias, vemos ser contada a história do vilarejo, do estado e do país. Encontramos uma Antares bem provinciana, dominada pelos coronéis e suas visões políticas. Ao mesmo tempo, o período que recebe maior atenção nessa parte do livro, da década de 1920 à 1960, ocorre uma grande transformação, com o amadurecimento da democracia e as tendência autoritárias.
O que fica mesmo é a impressão de ser esta uma cidadezinha como quase todas no Brasil daquela época, mas descrita e apresentada de um modo qual um contive, que enche o leitor de vontade de viver pro lá nem que seja por uma temporada.
Na segunda parte, já em dezembro de 1963, às vésperas do golpe militar de 1964, é deflagrada em Antares uma greve geral. Os operários das três indústrias que operam na cidade reivindicam melhorias nas condições de trabalho e, dado o clima nacional, recebem o apoio de todos os trabalhadores da cidade. Assim, ficam todos os serviços paralisados, das máquinas das fábricas, aos coveiros.
Os poderosos da cidade tentam uma retomada da ordem pela força, chamando a força nacional e apelando para o governador, mas são ignorados em nome da democracia e do direito de greve. Em meio a toda confusão, muitos se indignam com situação a ponto de ficarem com a saúde abalada. D. Quitéria Campolargo, matriarca que há décadas comanda a família com pulso de ferro, é uma das vítimas, pois morre de ataque cardíaco no dia em que se inicia a greve. No mesmo dia, outros seis antarenses passam dessa para a melhor, um recorde na pequena cidade em tempos de paz e saúde.
Como a greve abrange também os coveiros, os revoltosos ocupam a entrada do cemitério e impedem o sepultamento dos defuntos, levando a cidade a um clima de caos inédito.
A confusão só faz piorar quando os defuntos insepultos resolvem se levantar e reivindicar seu direito de sepultamento.

O livro foi adaptada para a televisão em uma minissérie na década de 1990, pela Rede Globo. Também foi vezes sem conta levada aos palcos como peça de teatro país adentro.
Este foi o último romance escrito pelo autor, em 1971, e, juntamente com a maior parte de sua obra, foi traduzida e publicada em vários países.

Mal posso esperar para ler outros livros do autor, mas fico com uma certeza: esse é um livro que vale a pena ser lido e relido várias vezes!

sábado, 9 de janeiro de 2016

Pseudônimo Mr. Queen - Loraine Pivatto

Regina Brandão era vivia uma vida comum, dona de uma rede de laboratórios em São Paulo até que descobre que seu marido a traia com a "melhor amiga", Vanessa. Em uma crise de ciumes ela mata a "amiga" e se torna uma assassina. Mas isso tudo foi antes do fim do mundo. Porque em 21 de dezembro de 2012 a vida como todos conheceram deixou de existir.
Na nova realidade, Regina e os 224 sobreviventes deveriam enfrentar o desafio de reconstruir a vida em sociedade, estabelecendo um governo, uma rotina. Entre as novidade do pós-apocalipse está o tempo de vida. De acordo com um recorrente sonho que aparentemente todos estavam tendo, nessa nova fase os sobreviventes disporiam de um novo período de vida: até completarem setenta anos, vida normal, após os 70, um recomeço, aos vinte até alcançarem os cem anos. Nem um dia a mais, nem um dia a menos.
Na nova realidade de Regina não há lugar para a velha rotina, nem para as mesmas pessoas, porque seus amigos e familiares não sobreviveram ao evento previsto pelo Calendário Maia. Entretanto a filha de Vanessa, Maria Eduarda, também sobreviveu, e cabe à Regina ajudá-la na Nova Realidade.
Acompanhamos Regina, Larissa (filha de Maria Eduarda) e posteriormente Vitória nas surpresas e armadilhas da vida após o fim do mundo.

Esse livro chegou às minhas mãos por meio da Book Tour organizada pela própria autora, a gaúcha Loraine Pivatto. Loraine me convidou para participar pelo Skoob, e me mandou este link com o cadastro do livro na plataforma Skoob. Vale a pela dar uma olhada, entrar em contado com a autora procurar saber mais sobre seu outro livro, Perseguição Digital. 
Agora que eu terminei a leitura o livro viaja para encontrar um novo leitor.

sábado, 28 de novembro de 2015

Pauliceia de Mil Dentes - Maria José Silveira

Há algumas semanas eu postei uma resena de um livro sobre o Rio de Janeiro. Este é sobre São Paulo. Ambos me foram dados pela mesma pessoa, em momentos diferentes, e se enquadram naquela categoria "eu jamais compraria", então só li porque caiu em minhas mãos. 
Quando falei sobre o Rio, disse que não gosto dessa ideia ufanista que os cariocas têm de sua cidade. Em Pauliceia de Mil Dentes, a autora se propõe a mostrar também o lado menos amado da cidade sobre a qual escreve, afinal, segundo ela, a cidade não é perfeita.
Já adianto que eu detesto a cidade. Morei lá entre 2013 e 2014, enquanto fazia mestrado e a cada vez que tinha que voltar era como retomar uma sentença de trabalhos forçados no inferno.
No último conto que publiquei, Quem tem Medo do Escuro, na coletânea King Edgar Hotel, da Andross Editora, minha personagem expressa a opinião que tem da cidade:
"Enquanto anda pelas ruas da metrópole, volta pensar que São Paulo sempre passa a ela uma impressão de estar suja, encardida até; e se lembrar de ouvir a cidade ser comparada a uma engrenagem em perpétuo movimento, pulsante de vida. Pra ela, mais parecia o movimento lento e repulsivo de um verme que se move em uma carcaça."

Isto posto, nem preciso dizer que o livro não me agradou. A prosa não é ruim, há uma boa fluência e a trama é bem bolada, mas o tema é enfadonho: a vida na metrópole.

sábado, 24 de outubro de 2015

Maldito Juscelino - Pedro Cunha de Menezes

Esse é um daqueles livros que eu só leio porque ganhei de presente; caso tivesse tomado-o entre as mãos em uma livraria, não teria dado a ele um lugar nas minhas estantes. E teria sido muito bem feito, porque não vale a pena por dinheiro nisso.
O livro traz, já em seu prefácio, a pachorrenta afirmação: "A trama do romance Maldito Juscelino envolve crime, suspense e violência. Classificar o livro como um representante do gênero policial, entretanto, seria um equívoco só permitido aos cegos." E continua dizendo que "sua história objetiva prender e agradar a todos os leitores", ou seja, não se filia a nenhum gênero nem consegue qualidade para se enquadrar em nenhum estilo, o autor atira solto para acertar qualquer alvo.
E erra, pois a narrativa é enfadonha, a premissa é fraca e o livro como todo é um fiasco.
Deixo aberto a questão de ser ou não um romance policial, mas garanto que é sobre uma cidade infestada pelo crime (o verdadeiro Rio de Janeiro), sobre policiais e sobre traficantes.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Morte na Flip - Paulo Levy


Seguindo em uma das minhas paixões literárias: O Romance Policial.
O escritor brasileiro Paulo Levy tem um feito raro em nossas terra, uma sequência de livros. Mais ainda, uma sequência de romances policiais sobre o mesmo delegado, Joaquim Dornelas.
Nesse livro, a fictícia cidade de Palmyra está em polvorosa com a iminente realização do evento literário mais importante do país, a Festa Literária Internacional de Palmyra - Flip (evidente releitura da verdadeira Flip, Festa Literária Internacional de Paraty).
Pouco antes da abertura do evento, Dornelas identifica algo suspeito: um barco sai ao mar no começo da noite levando a bordo um barqueiro e uma passageira. Parece pouco mas é suficiente para inquietar o delegado, que, pouco antes de sair encerrar seu expediente, coloca um subordinado de sobreaviso. Não dá outra, na manhã seguinte o delegado é despertado por uma ocorrência, dois corpos encontrado na praia, um homem, e uma mulher, aparentemente estrangeira.
No curso da investigação, acompanhamos o dia a dia do delegado, um homem recém abandonado pela esposa, que começa a redescobrir o amor (com a médica-legista Dulce Neves). Entre os hábitos notáveis de nosso herói - e ele é pintado mesmo como um herói, com rígidos padrões morais, que zela para que seus subalternos sejam respeitados e respeitadores, que é um pai quase exemplar, mesmo à distância - estão seus costumes alimentares. Com a vida corrida, ele nem sempre consegue fazer refeições propriamente ditas, então, sempre que preciso, recorre a uma receita infalível: seis colheres de farinha láctea, duas de leite em pó e água até completar um consistente mingau duvidosamente nutritivo. Ele também gosta de recompensar o próprio esforço com alguns quadradinho de chocolate ao leito no meio do dia (é ou não uma característica que dá charme a um personagem?!?!).
A tarefa de Dornelas se agrava quando ele descobre que uma das vítimas era uma importante escritora dinamarquesa convidada para participar da Flip.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O Caso Laura - André Vianco

Um dos mais fraco dos livro do autor, que é um sucesso nacional.
O livro conta a história de uma investigação, Marcel, o detetive, é contratado por um homem misterioso para investigar Laura, que vem se encontrando com outra figura misteriosa, Miguel.
Laura está profundamente abalada pela doença do pai e com um passado que lhe pesa na consciência. Nessa tempestade sentimental ela encontra refúgio em Miguel, um homem com quem conversa diariamente em um banco de praça e cujas palavras funcionam como um bálsamo para seu coração dilacerado.
O verdadeiro foco da investigação é Miguel, mas vistas as dificuldades em seguir e encontrar pistas sobre este estranho homem, e a beleza e fascínio que Laura exerce sobre Marcel, este se distancia de seu objetivo e passa a prestar mais atenção em Laura.
Não dá outra, eles acabam se envolvendo.
Paralelamente, acompanhamos a história de Alan, um investigador da Polícia Civil que nunca se recuperou da morte da mulher, assassinada durante uma troca de tiros em plena rua. Suspeito de quatro homicídios, o policial está na mira da Corregedoria e é observado de perto por Gabriela, a bela agente encarregada de verificar se ele é mesmo culpado.
Durante as investigações que ocorrem em separado no decorrer da trama, os personagens se cruzam.
A ideia geral do livro até que é boa, com mistério, um pouco de aventura e uma insinuação de sobrenatural, fator procurado e aguardado pelos fã do escritor. Porém os diálogos são fracos e, em alguns pontos, a narrativa deixa a desejar. Imagino que se o romance fosse encurtado para um conto, obteria mais sucesso.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Fim - Fernanda Torres

Boa literatura. É a melhor maneira de descrever este primeiro livro de Fernanda Torres, que não é nem um romance nem uma coletânea de contos, mas os dois ao mesmo tempo.
Ela brinca com a pontuação, flerta com os adjetivos e superlativos, altera o foco narrativo e nos conta a história de cinco amigos.
O livro fala sobre a vida, começando do avesso. A autora relata a vida de um grupo de amigos, começando capa capítulo pelo final, pela morte de cada um, iniciando com o último a morrer.
No meio da história entram as viúvas, as ex-mulheres, as ex-amantes, os filhos e outros satélites que orbitaram à volta deste grupo de cariocas.
Eles são:
Álvaro, que se tornara amargo com a idade, o último a morrer;
Sílvio, o porra-louca do grupo, o mais chafurdado nas drogas, o primeiro a se divorciar;
Ribeiro, o melancólico do grupo, comedor inveterado, na velhice seu melhor amigo foi o Viagra;
Neto, o suicida;
Ciro, o primeiro a morrer, considerado "o melhor de nós" por seus companheiros.

Ao fim do livro fica aquela agradável sensação que inspira a pergunta gritante: "Quando ele vai escrever o outro?"

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os Polos do Branco (ou do Negro) - João Cabral de Melo Neto

O branco não é uma cor:
é o que o carvão revela,
o carvão tão branco apesar,
do negro com que opera.
Talvez o branco seja apenas
forma de ser, ou seja
a forma de ser que só pode
na mais dura pureza.
E, embora negro e branco sempre
nos opostos se vejam,
a instabilidade dos dois
é de igual natureza:
ambos têm a limitação
(se polos na aparência)
glandular, de só conseguirem
viver na intransigência.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os Quatro Elementos - João Cabral de Melo Neto


AR

Um pássaro
Um avião
Um bailarino
Estão perdidos
No ar que eu respiro.

Uma casa
Uma árvore
Uma cidade
Se agitam
No ar que me banha.

No ar ás vezes perturbado
Pela rápida passagem
Da poesia :

Numa flor que treme
Num homem que se esquece
Nos noturnos sonhos ainda próximos
Tirando a lucidez
Ao ar da manhã.
TERRA

Á terra não é dado se evadir
(A terra diária : excesso talvez
De mãos necessárias como o ferro)
Como no céu foge uma nuvem
Como no ar erra a presença
Transparente - o mundo luminoso
Que a terra pode apenas ir sonhado.
ÁGUA

Água, água, água;
Água do mar e do copo;
Da sede e do navio;
Distância
Entre mim e o naufrago.

Presença futura na nuvem
Voando sobre Nova York;
No inverno
Molhando nossas almas

Água ausente da lua
Das pedras, dos fantasmas
Que surpreendemos imitando
Nossos gestos aquáticos.

Água sempre pronta
Para fugir, para partir :
(Fuga no ar como os sonhos)
Água do vapor de água.
FOGO

Fogo informe e obscuro
Que as palavras não atingem ;
Fogo um só como o homem
Fogo um só sobre a terra ;

Acaso sempre renovado
Da luz elétrica que se acende
De um sol que sempre nasce
Criando as profundezas
Debaixo do céu e dentro do meu quarto.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Falar com Coisas - João Cabral de Melo Neto

As coisas, por detrás de nós,
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é
comprar o que seja sem moeda:
é sem fundos, falar com cheques,
em líquida, informe diarréia.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Jogos Frutais - João Cabral de Melo Neto

De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.

Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.

Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.

É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.

Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.

De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.

o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.

Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.

És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.

Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.

És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.

o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.

Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.

Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.

És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.

Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampoucoem vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.

Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.

Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar
.que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.

De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.

És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.

És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do .mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.

És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba..
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.

Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a Iínguae a sede
de todo estanca.

Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.

Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.

Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.

Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.

És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Memórias Desmortas de Brás Cubas - Pedro Vieira

Há tempos eu estava à procura  deste livro para finalizar o que chamei de "série de clássicos revistos", como Dom Casmurro e os Discos Voadores, Senhora, a Bruxa e O Alienista Caçador de Mutantes. Foi muito bom tê-lo encontrado no Livros em Pauta, pois pude comprá-lo por um preço muito baixo. Do contrário seria uma lástima.
Decepcionante, é o primeiro adjetivo que associo ao livro. Na sequência, penso em enfadonho, mal escrito, clichê e outras palavrinhas menos educadas...
Para começar, diferentemente das outras revisões (citadas acima), este livro não se propõe a recontar a história original, mas a dar uma continuidade.
Não entendo isso como uma paródia...
O estilo do autor é pobre e imaturo; suas frases são mal construídas e repetitivas; enfim, ele envergonharia Machado!
Um exemplos do que ele considera boa escrita:
"Mencionei, nas Memórias anteriores, que antes de morrer trabalhei arduamente em meu emplasto [...] irei finalmente dar mais detalhes de como essa maravilha funciona [aqui ele se enrola, faz uma confusão e não diz nada, depois continua]. Ou seja, eu disse que iria finalmente dar detalhes, mas não dei. Menti. Isso que dá confiar tanto assim em um morto..."
Vieira também mistura personagens de outras obras machadianas (como A Cartomante e O Alienista). Talvez possam interpretar que isso cria a sugestão de que os personagens conviviam na imaginação do Imortal, mas, para mim, isso soa caótico e cheira a "forçação de barra".

sábado, 26 de outubro de 2013

Lucílola - José de Alencar

Alencar dá voz à Paulo Dias, que conta a história de seu relacionamento com uma mulher, explicando inicialmente que não o fizera de viva voz, e sim em forma de carta, em virtude de, na ocasião de uma visita a que alude, estar presente a neta da própria destinatária.
Logo após ter chegado ao RJ, Paulo foi convidado por um amigo, o sr. Sá, a acompanhá-lo à Festa da Glória, quando lhe atraíra a atenção uma jovem e bela mulher que, de início, não identificara como cortesã.
Lúcia era, assim, uma mundana de rara beleza e suave aspecto, que faziam parecer uma jovem inocente. Pelo menos, essa foi a impressão que levou Paulo a se apaixonar por ela.
Foi apresentado por Sá, que já fora seu amante. Mesmo sabendo disso, ele continuou a idealizá-la, sendo seu amigo por um tempo, antes de se tornar seu amante.
Paulo não a queria apenas como uma cortesã, famosa pelos requintes no amor, e sentia que ela também, na maneira de tratá-lo, nos seus silêncios, nos seus beijos e carícias, o amava realmente.
Viveram juntos uma relação alternada entre brigas e reconciliações, em que Lúcia, por vezes, voltava a seu ofício.
Lúcia contava-lhe, aos poucos, a sua história, de sua família, que viera morar na Corte e viviam dignamente, até que a epidemia de febre amarela levou a todos, restando apenas ela. Assim foi que, por necessidade, entregou o seu corpo a um ricaço de nome Couto, para conseguir ajuda. Depois disso, o caminho estava aberto à prostituição.
Após tal confissão, de que resultou um perfeito entendimento entre os dois, Lúcia foi morar numa casinha de Santa Teresa, que alugara, em companhia da irmã. Afastou-se da vida mundana para receber apenas a visita de Paulo.
O final, trágico, como não poderia deixar de ser, fica para você descobri...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Morte do Outros - João Cabral de Melo Neto


A morte alheia tem anedota
que prende o morto ao dia-a-dia,
que ainda o obriga a estar conosco
já morto, ainda aniversaria.

Só que não vamos pelo morto:
Queremos ver a companheira,
a mulher com que agora vive;
comprá-la, de alguma maneira.

Dizer-lhe: do marido de hoje
mais do que amigos fomos manos;
para que, amiga, salte um nome
de seu preciso livro Quandos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Diva - José de Alencar

Diva, um dos mais famosos romances romances de José de Alencar, foi publicado em 1864;  e, ao contrário do que muitos pensam, não é uma continuação de Lucíola, que se encerra na própria obra.
O que liga as duas obras é um detalhe curioso, a amizade entre o narrador de Lucíola, Paulo, e o narrador de Diva, Amaral.
O livro é composto por cartas que Amaral teria enviado a Paulo, como confissões a um amigo (outra semelhança!).
 Diva narra a história de Emília Duarte, contada pelo homem que a ama, Augusto Amaral.
Emília é uma adolescente muito retraída, que tem aversão a ser tocada por estranhos. Uma enfermidade a leva quase à morte. É chamado um médico recém-formado, o Dr. Augusto Amaral.
Augusto dedica-se a Emília, mas ela se recusa a ser tocada e não o deixa sequer entrar no quarto. Apesar de tudo, Augusto consegue salvar a moça, o que faz com que ela o odeie, temendo que ele exija sua amizade como recompensa.
Seguem-se várias discussões e brigas entre os dois, onde se revela o caráter de Emília, extremamente instável e voluntariosa. Augusto acaba apaixonando-se por Emília, mas as atitudes dela são tão incertas que acabam por levá-lo ao desespero.
Ao final tudo se reequilibra e termina bem, quando Emília revela seu amor pelo médico.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Os Pólos do Branco (ou do Negro) - João Cabral de Melo Neto

O branco não é uma cor:
é o que o carvão revela,
o carvão tão branco, apesar
do negro com que opera.
Talvez o branco seja apenas
forma de ser, ou seja
a forma de ser que só o pode
na mais dura pureza.
E embora negro e branco sempre
nos opostos se vejam,
a instabilidade dos dois
é de igual natureza:
ambos têm a limitação
(se pólos na aparência)
glandular, de só conseguirem
viver na intransigência.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O Último Poema - João Cabral de Melo Neto

Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Anúncio para Cosmético - João Cabral de Melo Neto

Nada há contra o tempo.
O homem tudo o que pode
é fechar-se ao espaço
redondo que o envolve;
jogar fora o espaço,
o fora, ele sim pode,
assim numa Cartuxa
que do ao redor o isole.
Mas o tempo é de dentro;
dentro ele faz-se, escorre,
e esse escorrer interno
não há nada que o corte.
Às vezes o "............"
por certo tempo o encobre:
não tempo ele próprio,
sim o corpo que ele morde,
já que o expressar do tempo
é roer o que percorre.